
E há quem diga que o que mais importa nas flores são as cores e o cheiro. Pois não é! A cor e o cheiro não passam de estímulos aos receptores químicos e físicos de insetos polinizadores. Têm esta função, e só vão além quando lhes conferimos outro papel. Não sou inseto e deus me livre de ser um polinizador. O que mais importa numa flor é seu som!
É muito fácil contemplar as cores vivas de uma orquídea ou lírio em detrimento da música que cantam, o poema que recitam ou o palavrão que esbravejam. Insetos com o sistema nervoso incomparavelmente mais simples que o humano têm essa capacidade e o fazem de modo hábil.
O que não fazem os insetos é ouví-las, pois para ouví-las é necessário perguntar, e insetos não perguntam. Apenas interpretam informações que lhes são oferecidas de modo muito limitado e objetivo. É necessária muita sensibilidade e percepção para ouvir o que diz uma flor, e aí não importa mais cor ou aroma.
O leitor pode relutantemente argumentar que a cor e o cheiro são palavras e notas ditas de forma clara e pensar que está discordando do que digo. Pois é exatamente o que digo. A cor e o cheiro de uma flor são palavras que expressam idéias concretas e sentimentos complexos, mas quando ouvimos o que é dito a palavra se perde e a idéia fica. Sua comunicação auditiva não se resume a palavras soltas. Vai muito além. Vai até onde se permite que vá. E não pense que falariam mais que se lhes permite, pois elas se calam antes que percebamos. Flores são seres educados que vivem em mentes receptivas.
(Osmar Machado)
